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Reinventar-se ou morrer: a transformação dos shoppings centers


Há alguns meses tivemos a oportunidade de começar a trabalhar em um projeto absolutamente conectado com a atual situação de mudança econômica/urbana: a revitalização urbana de um shopping center. Um espaço genérico, em um lugar genérico de qualquer periferia urbana. Para nós, urbanistas preocupados por detectar as necessidades da sociedade contemporânea, este projeto foi uma injeção de realidade muito estimulante que nos obrigou a reconsiderar nossa posição sobre os shoppings e seu papel na cidade atual.

O conceito do shopping, como o entendemos e experienciamos atualmente, poderá ter os dias contados. O mundo dos shoppings centers, que gozou de grande glória nos últimos anos, não tem sido, precisamente, um terreno de experimentação e inovação.

Importado dos Estados Unidos e muito vinculado à mobilidade por automóveis, o centro comercial é um modelo que foi implementado em distintas geografias e culturas com limitadíssimas variações: as mesmas marcas, a mesma gastronomia em uma atmosfera absolutamente genérica, controlada, climatizada e desconectada do exterior, tanto física como culturalmente. Uma atmosfera idônea somente para consumir, sem nem sequer prover espaços de descanso ou as condições para que os espaços “comuns” funcionem como um verdadeiro espaço público, entendido como espaço para a relação entre as pessoas, a socialização. Um espaço interior, de propriedade privada e com normas muito restritivas de utilização, que emula um espaço “público” exterior.

O pior para a inovação urbana é quando qualquer tipologia gasta e repetida até saciedade seja rentáveleconomicamente. Nesta situação podemos chegar a pensar, erroneamente, que estamos fazendo bem, porque o dinheiro jorrando sem fim é o melhor antídoto para refletir sobre muitos outros aspectos, tanto, ou mais importante, que o equilíbrio econômico. Agora pergunto: seria tão ruim parar e pensar por um momento?

É curioso ver como edifícios em contextos tão distantes e distintos ofereçam espaços, soluções e elementos tão homogêneos. A primeira anotação que se poderia fazer é que a estética e a filosofia que há por trás destes malls, assim como sua finalidade exclusivamente de ‘máquina para vender’, sejam muito similares em qualquer parte do mundo.

Edifícios como estes representam plenamente o fenômeno da globalização da linguagem arquitetônica e da reprodução de um modelo social e econômico em escala mundial. Muitos artistas interpretaram e registraram esta realidade; entre eles o fotógrafo Michael Galinsky, que em 1989, aos 20 anos, decidiu realizar uma viagem percorrendo diversos shoppings ao longo de todo o Estados Unidos. Esse trabalho foi compilado no livro Malls across America, publicado graças a uma iniciativa de crowdfunding no kickstarter.

COMO SURGIRAM?

O conceito de um espaço ‘rua’ com comércios em ambos os lados, onde se pode caminhar protegido das intempéries e onde o cidadão/cliente elege em que loja para fazer suas compras, é uma invenção que encontra suas raízes históricas na sociedade pós-revolução industrial. A aparição da burguesia, e com ela a semente da atual sociedade de consumo, começou a modelar nesta direção a forma dos centros urbanos contemporâneos.

O mais conhecido embrião histórico desses novos espaços urbanos, onde a vida social e o comércio eram completamente cobertos, são as galerias de Paris no século XIX. Estas luxuosas ruas comerciais, cobertas por sofisticadas estruturas de vidro e aço para permitirem a passagem da luz natural, podem ser consideradas o antecedente do contemporâneo shopping mall, criando “pequenas cidades, mundos em miniatura”, dentro do tecido urbano das cidades, tal como definidas por Walter Benjamin.

Mas o centro comercial tal qual o conhecemos atualmente é considerado um ‘invento’ do arquiteto austríaco-americano Victor Gruen, que em 1952 definiu sua visão em um artigo da revista Progressive Architecture, despertando a imaginação de empreendedores e prefeituras. Gruen concebeu em 1956 o primeiro protótipo de centro comercial fechado em Edina (Minnesota, Estados Unidos) e sua ideia inicial era incluir no conjunto todos os elementos que compõem a cidade, ou seja, habitações, escolas, espaços públicos e vegetação. O utópico projeto original de Gruen para o Southdale Mall finalmente omitiu em sua realização o restante dos elementos, e toda a inovação concentrou-se no formato “espaço fechado para compras”.

Posteriormente, o escritório “Victor Gruen Associates” seguiu projetando um grande número de shoppings centers, chegando a definir uma tipologia específica de edifícios com este fim comercial. A enorme difusão deste modelo genérico que simplifica até o extremo a sobreposição da urbanidade, vida social e atividade comercial, modificou os padrões de consumo, a forma de deslocar-se e os hábitos de ócio de milhões de famílias americanas. O modelo foi estendido até hoje é, portanto, totalmente centrado sobre o tema do consumo, deixando de fora a reflexão sobre o espaço público e cidade.

A cultura americana do carro promoveu a tendência de centros comerciais suburbanos. Image via Malls of America

O incrível êxito econômico dos shoppings na América foi reforçado pelo estilo consumista do “american way of life” e, finalmente, de uma maneira progressiva, muitas cidades acabaram por abandonar seu centro urbano ao converter o shopping como contentor da vida social ou o lugar de encontro para os adolescentes. Em 1990, os shoppings viveram o seu auge de popularidade e nos EUA foram abertos 140 novos empreendimentos ao ano.

Este formato foi se expandindo por outras cidades e países, sendo também exportado à Europa e instalado no velho continente como uma reformulação da galeria comercial inventada em cidades como Paris, tendo já pouco a ver com este arquétipo. Cria-se em paralelo com uma nova cultura urbana e de consumo que implica o uso do automóvel, a expansão da mancha urbana e a vida na periferia. As cidades europeias, com uma intensa vida urbana em seus centros, também reproduzem este modelo.

COMO ESTÃO HOJE?

Desde o início do novo século, a criação de centros comerciais tem vivido uma desaceleração. Existem diversas razões para isso:

  1. Os maiores, incríveis e inovadores “shoppings centers” são vistos nas novas “Américas” do mundo; ou seja, China, Emirados Árabes, Malásia, etc.

  2. Os centros existentes na Europa e Estados Unidos vem sofrendo uma crise que, longe de ser puramente econômica, vai além da atual recessão. É uma crise estrutural do modelo, uma crise que é, provavelmente, devido ao fim do efeito novidade e a existência de um contexto diferente e novos modelos de negócios que são possíveis através da compra online. Hoje, o cenário econômico é diferente; a concorrência entre os centros mais antigos e obsoletos e os recém-construídos é atroz e a Internet multiplica seus negócios a cada ano.

  3. A obsolescência é uma parte fisiológica da vida de todo objeto e, portanto, a capacidade de inovar e buscar novas oportunidades é essencial para a sobrevivência. Os shopping centers, por seu enorme sucesso econômico, não tiveram a necessidade de repensar e questionar o seu modelo, para inovar ou incorporar programas, ideias ou mudanças de adquirir uma identidade. Este negócio bem sucedido tem azeitado uma maquinaria econômica que clonou o mesmo modelo não deixando espaço para questionamentos por que repensar um modelo que é altamente rentável e trabalha em diferentes contextos e culturas?

REINVENTAR-SE OU MORRER. POSSÍVEIS SOLUÇÕES PARA A REVITALIZAÇÃO URBANA

Hoje é necessário pensar no cidadão-cliente, não como um mero consumidor a que se tenta vender o máximo possível, mas como alguém que pode desfrutar ao ter uma experiência diferente ao visitar o local. Potencializar a ideia de espaço público em um edifício de propriedade privada é um desafio conceitual, que vai contra a própria definição e objetivos de um centro comercial. Mas esta nova realidade econômica requer repensar os preceitos que têm funcionado até então, abrindo novas possibilidades e estratégias que não têm cabiam graças à crise econômica e urbana.

Estes edifícios não podem continuar a basear sua sobrevivência em um atrativo em decadência. As possibilidades são renovar-se ou morrer. O modelo de shopping, tal como o conhecemos até agora, tem de abrir-se o espaço que o acomoda, ser menos hostil ao meio ambiente e aos seus visitantes, e proporcionar uma experiência mais ligada à realidade dos usuários e cidade onde se implanta. Por outro lado, a crise atual permite a incorporação de usos e programas, expulsos de outros espaços, podendo ser usados para introduzir novos conteúdos a espaços disponíveis.

CENTRO COMERCIAL DE SANTA MÓNICA: DE SHOPPING A RUA COMERCIAL ABERTA

Os centros comerciais competem hoje por entreter o cliente, proporcionando uma experiência diferente, uma atmosfera que ofereça outros incentivos além de uma ampla oferta comercial.

Em busca de experiências, é interessante a estratégia do Santa Monica Place, um centro comercial projetado por Frank Gehry há mais de 30 anos, que depois de investir 265 milhões de dólares e fechar temporariamente, optou por reconfigurar-se demolindo a cobertura e converter-se em um centro/espaço comercial aberto com vistas ao oceano, as montanhas e o pier de Santa Monica. Um magnífico exemplo da reconfiguração de um espaço comercial, que opta por uma solução radical ao criar uma experiência mais urbana, frente a uma atmosfera encapsulada e climatizada que predomina na tipologia clonada de shopping centers.

A EXPERIÊNCIA “SHOPPING MALL” DE ECOSISTEMA URBANO

Graças a um encargo profissional, tivemos a oportunidade de estudar a fundo shopping na área periférica de Barcelona. Este centro foi criado nos anos 90, frente ao caráter suburbano somente acessível de automóvel, ele também pode ser acessado a pé ou de transporte público, o que lhe confere um enorme valor. Sua localização é particularmente favorável, pelo que a proposta tem um forte caráter urbano, onde o principal desafio tem sido a identificação de uma estratégia de revitalização ou questionamento de sua própria identidade em relação ao tecido urbano que o cerca: que atividades ou usos podem ser incorporados?, como se conectar com os cidadãos da área?, como responder à realidade social do bairro?, que papel pode desempenhar este novo edifício?, como manter o comércio e a atividade econômica, permitindo que a cidade se aproprie desse espaço em atual decadência?

A proposta aborda a reconfiguração do centro através da introdução de novos programas na tentativa de torná-lo um espaço muito mais público, sendo capaz de atrair os usuários que, de outra forma, não viriam. Confrontado com a possibilidade de propor um único programa que ‘resolvesse’ as patologias atuais, a proposta estuda possíveis alternativas para dinamizar o edifício criando uma nova identidade para cada um, podem ser distinguidos de outros shoppings, que como temos mencionado, carecem de identidade distintiva.

Uma maneira de reinventar novas funções sociais um grande espaço coberto é mediante a identificação de diferentes temas e atividades -tendo conexão com o lugar- criar uma nova identidade, ligada às novas necessidades ou desejos. Estabelecer novas relações entre espaço e os esportes, jogos, cultura, tecnologia, gastronomia, redes ou qualquer outra atividade urbana, pode conectar com os cidadãos, cansados de experimentar um edifício monofuncional, são atraídos por experiências urbanas cada vez mais complexas.

Uma das medidas necessárias para alcançar a maior integração possível do centro comercial nas operações de ambiente urbano, é a de diluir as fronteiras entre interior e exterior, favorecendo que um entre no outro, fazendo com que o espaço fechado seja mais permeável, mais conectado física e conceitualmente com seu ambiente imediato. O limite físico de conexão entre ambos é a fachada e sobre esta foca-se uma boa parte da intervenção. A fachada se torna ‘interface’ de conexão com os cidadãos, servindo como suporte para muitos tipos de novas atividades (escalar, descer por um tobogã, assistir filmes, visualizar uma plataforma digital para interagir via celular, aumentar a presença de espécies vegetais, etc.).

O modelo proposto para o centro comercial em Barcelona poderia ser um exemplo de como esses edifícios podem converter-se em equipamentos públicos, de maneira que, graças a um enfoque que considera aspectos de meio ambiente, participativos e tecnológicos, podem atualizar lugares que acabaram obsoletos, anacrônicos ou subutilizados.

Fonte: SBVC

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